Uma iniciativa que nasceu no município de Piaçabuçu, no Litoral Sul de Alagoas, começa a ganhar destaque como referência de um modelo inovador de desenvolvimento territorial baseado na cooperação. A criação de uma moeda social vinculada ao banco comunitário “É da Gente” integra uma experiência considerada pioneira no estado: a articulação entre uma cooperativa de crédito e um banco de economia solidária, garantindo aporte financeiro e ampliando o acesso a serviços para empreendedores locais.
A iniciativa fortalece a circulação de recursos dentro da própria comunidade e já começa a ser observada como modelo para outras regiões interessadas em impulsionar a economia a partir do cooperativismo.
O Banco É da Gente nasceu a partir da Cooperativa dos Agricultores Familiares e Empreendimentos Solidários de Piaçabuçu (Coopaiba) e surgiu como resposta à ausência de agências bancárias no município.
“Surgiu dentro de um contexto de desbancarização. Não havia agências oficiais em Piaçabuçu, e os serviços financeiros estavam concentrados na cidade vizinha, Penedo, o que gerava impactos negativos para a economia local”, explica o presidente do banco, Pedro Vinícius.
Como parte do processo de expansão das atividades, o banco comunitário lançou recentemente a moeda social É da Gente (EDG) e uma nova plataforma digital, chamada Assertivo, ampliando as possibilidades de acesso da população aos serviços financeiros.
Desenvolvida em parceria com o Instituto Assertiva, a plataforma permite a realização de pagamentos, transferências e outras movimentações financeiras por meio de aplicativo, facilitando o uso da moeda social e fortalecendo sua circulação dentro da própria comunidade.
A moeda social funciona tanto em formato digital quanto físico e mantém paridade com a moeda nacional.
“A moeda mantém lastro com o real e funciona de forma paritária: 1 EDG equivale a R$ 1. O objetivo é que ela circule exclusivamente em Piaçabuçu, fortalecendo o comércio local e as relações econômicas dentro da cidade”, explica Pedro.
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Intercooperação fortalece o sistema financeiro comunitário
A estrutura do banco comunitário foi construída a partir de um processo de intercooperação entre organizações do território. De acordo com o presidente, o processo de incubação começou dentro da própria Coopaiba, que já possuía uma base de cooperados e realizava movimentações financeiras entre seus membros.
Com a ampliação da iniciativa, o projeto passou a contar também com a parceria da Cooperativa de Crédito do Agreste Alagoano (Cooperagre), que contribui com a estrutura financeira da operação.
“O banco surgiu dentro da cooperativa e, a partir da necessidade de ampliar a atuação, estabelecemos um processo de intercooperação com a Cooperagre. Essa parceria dá maior robustez à iniciativa e fortalece o que hoje já é considerado uma experiência modelo dentro do sistema nordestino de finanças solidárias”, afirma.
Impacto econômico no município
Em cerca de três anos de funcionamento, o banco comunitário já movimentou aproximadamente R$ 6,5 milhões em moeda social, em uma comunidade com cerca de 17 mil habitantes.
Segundo os organizadores da iniciativa, a circulação da moeda dentro do próprio município tem contribuído para fortalecer a economia local, ampliar o acesso a serviços financeiros e estimular o consumo no comércio da cidade.
Cooperativismo como base do modelo
A experiência também demonstra o potencial do cooperativismo como ferramenta de desenvolvimento territorial. O sistema criado em Piaçabuçu reúne diferentes organizações e iniciativas em um ecossistema que envolve cooperativas de produção, cooperativa de crédito, associações comunitárias e grupos de mulheres e jovens.
“Esse modelo funciona como um ecossistema. Conseguimos integrar cooperativas de produção, cooperativas de crédito, associações de mulheres e o trabalho com a juventude, criando um sistema de autofinanciamento e autogestão dentro da própria comunidade”, explica Pedro.
Experiência pode se expandir para outros municípios
O modelo desenvolvido em Piaçabuçu já começa a atrair a atenção de outras regiões e pode inspirar novas iniciativas de finanças solidárias em Alagoas. A experiência também dialoga com projetos desenvolvidos em parceria com a Secretaria Nacional de Economia Popular e Solidária (Senaes), que preveem a expansão do modelo.
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“A experiência fala por si só. Hoje ela já se tornou uma pauta não apenas regional, mas também nacional. Temos projetos junto à Senaes que preveem a abertura de mais quatro bancos comunitários em Alagoas”, afirma.
Modelo fortalece políticas públicas de cooperativismo
Para o secretário executivo de Cooperativismo, Associativismo e Economia Solidária da Secretaria de Estado do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Sedics), Benedito Júnior, iniciativas como a de Piaçabuçu demonstram o potencial do cooperativismo para impulsionar o desenvolvimento econômico em diferentes territórios.
“A experiência de Piaçabuçu demonstra como o cooperativismo e a economia solidária podem criar soluções inovadoras para fortalecer a economia local, ampliar o acesso a serviços financeiros e gerar oportunidades para a população. O que temos aqui é uma experiência única: uma cooperativa de crédito atuando como aporte financeiro para um banco comunitário que opera com moeda social”, destaca.
Ainda de acordo com o secretário, a experiência tem sido discutida no Congresso de Economia Solidária e Moedas Sociais como um modelo a ser reproduzido em outros territórios.
Livia Leão / Ascom Sedics
